Os Fantoni

Craques do antigo Palestra Itália, atual Cruzeiro, na década de 40.
Craques do antigo Palestra Itália, atual Cruzeiro, na década de 40.

Lia o jornal sem me deter a nenhuma notícia específica. Meus olhos passavam por aquelas páginas que estampavam o mundo, suas mazelas e glórias. Até que me detive no caderno de esportes. Uma matéria do veterano colega Plínio Barreto – o autor do livro sobre a história do Cruzeiro – que recontava a trajetória dos Fantoni, três futebolistas dos anos 30 que marcaram sua época dentro e fora das canchas. Adorado pelas mulheres e temido pelos adversários, Orlando (Ninão), Octavio (Nininho) e Niginho faziam parte da primeira leva de craques que os europeus levaram para brilhar em seus gramados. A leitura me remeteu àqueles tempos idos, como se de alguma forma eu pudesse estar lá, presenciando a despedida dos três craques na gare da Central do Brasil naquela noite de 2 de abril de 1931... O comboio partia para a capital federal e de lá para a Itália pelo transatlântico “Giulio Cesare” Nele, um confortável camarote a eles reservado.Contratados pela Societá Sportiva Lazio, de Roma a pedido de seu presidente Bruno Mussolini, filho do “Ducce”, fizeram dinheiro, alcançaram a fama e o reconhecimento por suas atuações na península e posteriormente em todo o continente. Ganharam o tão aguardado campeonato nacional e inscreveram seus nomes na galeria dos heróis do esporte.
A boa estrela os acompanhava par-e-passo até romper-se a tragédia e as sucessivas desventuras. Num Lazio X Torino um choque com o atacante torinense redundou em ferimento nasal. Medicado na pista, retornou ao gramado. Nada indicava conseqüência funesta, mas 24 horas após sobreveio o inesperado: gangrena. Levado para a Clínica Morganti, uma equipe médica lutou contra o mal na tentativa de salvar o jovem atleta, o maior na posição em toda a Europa. Vinte dias a luta entre a vida e a morte. Na manhã de 12 de fevereiro de 1935, aos 28 anos, Nininho morria. Ainda abatidos pela dor, Niginho e Ninão foram convocados para integrar as forças do exército no conflito com a Abissínia, atual Etiópia, por terem descendência italiana. Atormentados, desertaram. Vivendo na clandestinidade, caem nas armadilhas da bebida, envolvem-se em brigas e amores bandidos. A muito custo, conseguem retornar ao Brasil trabalhando na expedição de cargas de um navio. E voltam a envergar a camisa verde de gola e punhos vermelhos do time que os revelou ao mundo, a “Societá Sportiva Palestra Itália” que mais tarde passaria a se chamar Cruzeiro Esporte Clube. Plínio Barreto termina assim sua crônica :
“Em nossa recente estada na capital italiana pesquisamos, eu e meu filho Luiz Otávio, jornais, revistas, arquivos e bibliotecas. Sobre a morte de Nininho estampa o “Il Messaggero” em manchete de 14 de fevereiro de 1935: “L’Imponenti funeralli de Octávio Fantoni.” Também em manchete do “Corriere delo Sport”: “De luto o cálcio italiano”. No cemitério de Verano, a lápide em marmore de Carrara com os dizeres: “Octávio Fantoni – nato a Bello Orizonte (sem H) – 4/4/1907 Morto a 12/2/1935. Havia flores no túmulo.”